janeiro 27, 2017

Esta semana os pais dos alunos do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, manifestaram a sua indignação pelo facto da obra "O Nosso Reino", de Valter Hugo Mãe, constar na lista de livros recomendados do Plano Nacional de Leitura, dada a linguagem explícita e conteúdo sexual violento.

"E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu."

Fernando Pinto do Amaral, comissário do Plano Nacional de Leitura, já esclareceu que o livro entrou nas listas para o 3º ciclo por lapso, já que havia sido escolhido para os alunos do secundário.

Alguém que avise os pais destes miúdos que não há nada no livro que os seus rebentos não tenham acesso nas internets desta vida, à qual eles acedem sem qualquer tipo de controlo.
A criançada, se quiser entretanto livrar-se de ler o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, é aproveitar que a fogueira está acesa e mostrar aquilo aos papás, é que há para lá umas asneiradas. Ah! E Bocage, aquilo também era um porcalhão a escrever. Olhem! E aproveitem e queimem também Os Maias, que aquilo às páginas tantas tem para lá coisas que os irmãos não deviam fazer uns aos outros.



janeiro 26, 2017

Opinião: O Passo Constante das Horas, Justin Go

Título: O Passo Constante das Horas
Título original: The Steady Running of the Hour 
Autor: Justin Go
Editor: Bertrand Editora
ISBN: 9789722530286
Nº de Páginas: 464

Sinopse: Em 1924, Ashley Walsingham morre ao tentar escalar o Evereste, deixando a sua fortuna a Imogen com quem teve um romance mas a quem não vê há sete anos. A herança nunca chega a ser reclamada.
Em 2004, Tristan recebe uma carta de uma firma britânica que levanta a hipótese de ser ele o herdeiro direto da imensa fortuna de Ashley. Se Tristan conseguir provar que é descendente de Imogen, a herança será sua. Mas tem apenas algumas semanas antes que o prazo legal para o fazer. Dos arquivos de Londres aos campos de batalha do Somme e aos fiordes da Islândia, passando por Berlim e sul de França, Tristan tenta juntar as peças da história por detrás da fortuna por reclamar: um intenso romance dias antes de Ashley ser enviado para a Frente Ocidental e uma ousada expedição ao cume incógnito da montanha mais alta do mundo. Seguindo um rasto de pistas pela Europa, Tristan é consumido pela história de Ashley e Imogen. Mas ao aproximar-se da verdade, percebe que talvez ande à procura de algo mais do que uma fortuna.

     Quando Ashley Walsingham morre enquanto escavala o Evereste, deixa toda uma fortuna a Imogen, com quem havia tido um romance há sete anos tendo entretanto perdido o seu rasto. Sendo o parente mais próximo, Tristan é contactado para reclamar a herança, mas para o fazer tem de encontrar uma prova escrita de que Imogen é a sua bisavó. O que parece ser uma simples tarefa afinal é uma grande corrida em busca da verdade.
     Na obra temos duas perspetivas a de Ashley nos anos 1916-1924 e Tristan no presente, 2004. As narrativas de ambos parecem ser muito diferentes, a história não vai tomando o rumo que estamos à espera o que chega a tornar-se dececionante. Mas depois de pensar nisso, o fim parece mais adequado, mais justo, a maneira como Justin Go escreveu. É de certo modo aberto e vago, o que obriga o leitor a unir as pontas soltas, fazendo com que existam intermináveis desfechos.
Uma missão impossível e uma história de amor épica.


Justin Go nasceu em Los Angeles e estudou nos Estados Unidos e em Londres. Viveu em Paris, Londres, Nova Iorque e Berlim.

janeiro 19, 2017

Opinião: A Herança , Katherine Webb

Título: A Herança
Título original: The Legacy
Autor: Katherine Webb
Editor: Edições Asa
ISBN: 9789892315201
Nº de Páginas: 456

Sinopse: Após a morte da avó, as irmãs Erica e Beth Calcott regressam a Storton Manor, a imponente mansão da família. Rodeada pela atmosfera mágica das férias de Verão da sua infância, Erica relembra o passado, particularmente o primo Henry, cujo desaparecimento daquela mesma casa dilacerou a família e marcou Beth terrivelmente. A jovem decide agora descobrir o que aconteceu a Henry, para que o passado possa ser enterrado e a irmã consiga finalmente encontrar alguma paz. Mas, quando começa a investigar, um segredo familiar ameaça sair da sombra: uma história que remonta à América na viragem do século XIX, protagonizada por uma bela herdeira das classes altas e uma terra selvagem e assombrosa. À medida que o passado e o presente convergem, Erica e Beth têm de enfrentar duas terríveis traições e uma dolorosa herança.

     A Herança é um romance que salta para frente e para trás entre o dia de hoje e 1902-05. Na atual Inglaterra, Erica Calcott retorna ao Storton Manor, o lugar onde cresceu, depois da morte de sua tia-avó. Erica e a sua irmã são assombradas por um segredo existente desde a infância das duas, que sobe à superfície depois da Erica se deparar com uma velha amiga de infância. A história pula no tempo para a bisavó de Erica e Beth, Caroline, recém-casada que vivia na fronteira de Oklahoma.
     São muitos os romances com esta divisão de tempo mas gostei deste, embora fosse possível prever um pouco a história de Erica e Beth. Estava muito interessada nas histórias dessas mulheres mesmo não gostando da personagem da Caroline e do seu egoísmo. Enquanto que a Erica apresentou-se uma personagem mais plana.
     Houve uma série de reviravoltas que foram muito originais. Levei um pouco de tempo para entrar na história, mas quando entrei comecei a apreciá-la bastante. Penso que o uso do tempo presente / passado para cada uma das heroínas era inteligente e muito bem feito pelo autor.


Katherine Webb nasceu em 1977 e cresceu no Hampshire, em Inglaterra, antes de ir estudar História na Universidade de Durham. A Herança, o seu primeiro romance, ganhou o YouWriteOn Book of the Year Award 2009, tendo a autora sido finalista do National Book Tokens New Writer of the Year 2010. 

janeiro 12, 2017

Opinião: Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago

Título: Ensaio sobre a Cegueira
Autor: José Saramago
Editor: Porto Editora
ISBN: 9789720046833
Nº de Páginas: 344


Sinopse: Um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A cegueira alastra como "um rastilho de pólvora". Uma cegueira colectiva. Romance contundente. Saramago a ver mais longe. Personagens sem nome. Um mundo com as contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. as ideias a virem ao de cima, sempre na escrita de Saramago. A alegoria. O poder da palavra a abrir os olhos. face ao risco de uma situação terminal generalizada. A arte da escrita ao serviço da preocupação cívica.



O Ensaio sobre a Cegueira obriga-nos a ver. Seria esta a melhor frase para definir esta obra, é um livro angustiante que nos faz valorizar a nossa capacidade de ver, e questionar o quão indiferentes somos quando optamos por não ver.
O mundo entra num caos assolado por uma cegueira branca altamente contagiosa, e perde-se mais do que a visão, perde-se a dignidade, a humanidade.
José Saramago a meter o dedo na ferida e a mostrar que o Homem quando levado ao limite traz ao cima o melhor e o pior de si.

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."





Escritor controverso principalmente pela sua oposição aos princípios da Igreja Católica, José Saramago (1922-2010), prémio Camões em 1995 e prémio Nobel da Literatura em 1998, deixa um verdadeiro legado à Literatura Portuguesa com mais de três dezenas de obras publicadas.

janeiro 07, 2017


Gostando ou não de Mário Soares, ninguém o pode tirar da História do nosso país, ninguém lhe tira a luta pela democracia em Portugal. Não deixa de ter sido também por ele que hoje todos têm a liberdade de dizerem o que quiserem sobre a morte dele.

janeiro 06, 2017

Opinião: A Estrada, Cormac McCarthy

Título: A Estrada
Título original: The Road
Autor: Cormac McCarthy
Editor: Relógio D'Água
ISBN: 9789727089345
Nº de Páginas: 187

Sinopse: Um pai e um filho caminham sozinhos pela América. Nada se move na paisagem devastada, excepto a cinza no vento. O frio é tanto que é capaz de rachar as pedras. O céu está escuro e a neve, quando cai, é cinzenta. O seu destino é a costa, embora não saibam o que os espera, ou se algo os espera. Nada possuem, apenas uma pistola para se defenderem dos bandidos que assaltam a estrada, as roupas que trazem vestidas, comida que vão encontrando - e um ao outro. A Estrada é a história verdadeiramente comovente de uma viagem, que imagina com ousadia um futuro onde não há esperança, mas onde um pai e um filho, "cada qual o mundo inteiro do outro", se vão sustentando através do amor. Impressionante na plenitude da sua visão, esta é uma meditação inabalável sobre o pior e o melhor de que somos capazes: a destruição última, a persistência desesperada e o afeto que mantém duas pessoas vivas enfrentando a devastação total.

     A Estrada ocorre em um momento em que o mundo praticamente acabou e tudo se transformou em cinzas. Mundo esse em que acompanhamos os personagens principais, um pai e um filho, que nunca chegamos a saber quais os seus nomes. Ao longo da obra seguimos a jornada de ambos a tentarem sobreviver com o objetivo de rumarem para sul, até chegarem à costa.
     Entre vários problemas que vão encontrando um deles é a escassez de comida, que leva ao canibalismo, o que lhes dá mais uma razão para não confiarem em ninguém. E o facto de não puderem estar muito tempo no mesmo sítio, o que os obriga a andar em constante fuga.
     A história faz com que nos perguntemos várias coisas ‘’Se não há nada para viver, porquê lutar tanto para continuar vivo?’’, ‘’Se ele tem uma arma porque não acabar logo com o sofrimento de ambos?’’, e no meio daquilo tudo ‘’Qual deles estava numa situação pior, o pai ou filho?’’. Provoca-nos sensações assustadoras e deprimentes ao ponto de ter de segurar a lágrima, mas no meio de tanta tristeza consegue-nos encher de esperança e amor. 


Cormac McCarthy nasceu em Rhode Island, em 1933. Estudou na Universidade do Tennessee, que deixou para ingressar na Força Aérea. Vive actualmente em Santa Fé, no sul dos Estados Unidos, com a mulher o filho. É autor de nove romances, entre eles, O Filho de DeusO Guarda do Pomar e Meridiano de Sangue. Recebeu o Prémio Pulitzer em 2007.